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Se Deus te chama...vai!

 



Há uma pergunta que aparece cedo demais. Mais cedo do que devia. Basta entrares no secundário e ela começa a surgir em almoços de família, conversas à saída da igreja ou encontros inesperados com amigos dos teus pais: "Então, já sabes o que vais fazer da tua vida?" 


A pergunta parece inocente. Afinal, toda a gente quer saber dos nossos planos. O problema é que, muitas vezes, nem nós sabemos quem somos, quanto mais aquilo que vamos fazer durante os próximos quarenta anos. Uns respondem sem hesitar. Medicina. Engenharia. Psicologia. Outros sorriem e dizem apenas: "Ainda estou a pensar." Nem sempre é verdade. Às vezes, "ainda estou a pensar" significa simplesmente: "Tenho medo de escolher mal."


Como cristão, talvez conheças um medo ainda mais profundo. Não é apenas o receio de entrar no curso errado ou aceitar o emprego errado. É o receio de falhar a vontade de Deus. Como se ela fosse um ponto exato no mapa e bastasse um desvio para a perdermos para sempre. Durante muito tempo imaginei a vontade de Deus dessa forma. Como um percurso traçado ao milímetro. Se saísse dele, passaria o resto da vida a perguntar-me onde tinha errado. Só que os Evangelhos começaram a desmontar essa ideia. Quando Jesus chama Pedro, André, Tiago e João, não lhes apresenta um plano de carreira. Não lhes explica para onde vão viajar, como irão viver ou o que lhes acontecerá dali a alguns anos. Também não lhes promete que tudo será fácil. Faz apenas um convite: "Segue-me." É surpreendente como duas palavras podem mudar uma vida.


Talvez o nosso problema seja querermos respostas para perguntas que Jesus nunca prometeu responder. Gostávamos de conhecer o destino antes de dar o primeiro passo. Jesus parece mais interessado em saber se confiamos n'Ele enquanto caminhamos. Foi preciso tempo para perceber outra coisa: Jesus nunca chamou pessoas apenas para lhes dar um futuro. Chamou-as para participarem naquilo que Deus já estava a fazer no mundo. Isso muda completamente a conversa. De repente, a questão deixa de ser: "Que profissão devo escolher?" e passa a ser: "Como posso servir Cristo onde quer que Ele me coloque?" Pode ser num hospital. Numa escola. Num escritório. Num laboratório. Numa oficina. Numa igreja. O lugar muda. A missão não.


Às vezes falamos como se Deus precisasse apenas de pastores, missionários ou líderes. Mas experimenta imaginar uma cidade onde não existe um único professor cristão que trate os alunos com dignidade. Ou um hospital onde ninguém reflita a compaixão de Cristo. Ou uma empresa onde nunca se veja honestidade quando ninguém está a olhar. É precisamente por isso que Deus continua a espalhar os Seus discípulos pelo mundo. Não para ocuparem lugares religiosos, mas para viverem o Evangelho onde a vida realmente acontece.


Há uma história que nunca deixa de me impressionar (João 6:1-15). No meio da multidão que seguia Jesus, aparece um rapaz com cinco pães e dois peixes. Nunca sabemos o seu nome. E talvez isso seja intencional. A Bíblia não quer que nos lembremos dele; quer que nos reconheçamos nele. Enquanto os discípulos faziam contas e concluíam que era impossível alimentar tanta gente, aquele rapaz fez uma coisa muito simples: abriu as mãos. Não resolveu o problema nem apresentou um plano brilhante, apenas entregou o pouco que tinha.


Se calhar estás a pensar: "Isso é muito bonito, mas eu nem consigo falar em público." Ou talvez aches que conheces tão pouco da Bíblia que Deus nunca te poderia usar.


Curiosamente, quase todas as pessoas que Deus chamou começaram precisamente aí. Moisés achava que falava mal. Jeremias dizia que era demasiado novo. Gedeão tinha a certeza de que Deus escolhera a pessoa errada. Nenhum deles parecia a escolha óbvia. Talvez porque Deus nunca tenha procurado pessoas impressionantes. Tem procurado pessoas disponíveis. E disponibilidade é uma palavra pouco valorizada. Vivemos rodeados de currículos, resultados e desempenho. Deus continua a começar pelo coração.


É por isso que a vocação cristã não começa quando descobres a profissão perfeita. Começa quando deixas de perguntar apenas: "Qual é o plano de Deus para a minha vida?" e passas a perguntar: "Como posso participar na missão de Deus com a vida que tenho hoje?" O curso importa. O trabalho importa. As escolhas importam. Mas nenhuma delas define a tua chamada.


Antes de seres médico, engenheiro, eletricista, investigadora, professora ou pastor, és chamado a pertencer a Cristo. E tudo o resto passa a ser o lugar onde esse chamamento ganha forma. Talvez, daqui a dez anos, não estejas exatamente onde hoje nem imaginas e está tudo ok! Nem os primeiros discípulos sabiam para onde aquela caminhada os levaria. Sabiam apenas Quem tinham decidido seguir.


Talvez esta continue a ser a pergunta mais importante: “Quem conhecerá melhor Jesus porque tu decidiste dizer 'sim'?" Se essa pergunta orientar as tuas escolhas, é bem provável que descubras a vontade de Deus enquanto a vais vivendo, e não antes de começares a caminhar. Porque Deus continua a chamar pessoas comuns. E a transformar a disponibilidade delas em parte da Sua missão.


Se Deus te chama, vai!


Jonas Rodrigues e Nunes

Missionário

Reguengos de Monsaraz (Missão AD Almada)