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Posso ou não posso? Eis a questão!


Ao abrirmos as redes sociais somos bombardeados por um milhão de cursos que ensinam o melhor método para tudo e mais alguma coisa, e por vezes, é assim que olhamos para a Bíblia como o método dos “5 passos para chegar ao Céu”. 

A FÉ NÃO É UM TUTORIAL ONLINE

Certa vez, um jovem chegou perto de Jesus e perguntou: “(…) Bom Mestre, o que devo fazer para conseguir a vida eterna?” (Marcos 10:17, NTLH). Muito atual, não? Se este jovem vivesse nos nossos dias, talvez, a sua pergunta fosse: “Jesus, que método devo seguir para alcançar o Céu? Ensina-me o passo a passo.” Quando olho para este diálogo entre o jovem e Jesus, pergunto-me como é que é possível ser um diálogo tão contextualizado com os nossos dias. Bem, talvez porque a natureza humana não tenha mudado tanto assim. Não me parece nada estranha a ideia de pensar no jovem rico das Escrituras sentado em frente ao seu computador, a pesquisar no Google: “Qual o melhor passo a passo para ganhar a vida eterna?”.


Este jovem de ignorante não tinha nada, até porque sabia exatamente qual era o melhor professor que lhe podia ensinar sobre essa temática. O problema é que Jesus virou o jogo, mudou a questão. Ao invés de lhe apresentar o custo de um plano anual com um método passo a passo, Jesus apresentou-lhe um custo vitalício (permanente e constante) de uma vida de renúncia. A resposta de Jesus mostrou que o Evangelho não é como seguir um método, um passo a passo, não é obedecer a regras e normas: o Evangelho é vida, entrega, renúncia, transformação de coração dia-a-dia.


É assim que muitas vezes olhamos para as Escrituras: como um manual que nos diz o que podemos e não podemos fazer. Levamos as nossas questões para o texto bíblico à espera de respostas e nem sempre as encontramos. Procuramos os nossos líderes e perguntamos: “Posso fazer tal coisa? Não posso fazer aquilo? É pecado fazer…?”. Queremos um método, um passo a passo que nos diga tudo bem discriminado, mas a vida cristã é muito mais exigente do que um simples “podes” e “não podes”. Jesus criticou os religiosos por viverem assim: na superfície do “pode e não pode” — pois aparentemente até parecia que “eram crentes”, mas, na verdade, o seu coração estava distante de Deus.


É neste mesmo sentido que também o apóstolo Paulo nos diz: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm (…)” (1 Coríntios 6:12a, ARA) Por outras palavras: podes fazer tudo o que quiseres, mas nem tudo é o que deves fazer. Viver a vida cristã nesta perspetiva é viver numa outra dimensão: a dimensão da transformação. O Evangelho não muda comportamentos: o Evangelho muda corações, que depois alteram o seu comportamento. Quando o amor de Deus te transforma de dentro para fora, o que muda em primeiro lugar são os teus desejos.


Quando te perguntam por que não fazes determinada coisa, o que respondes? Será que não fazes porque te disseram que não era para fazer, ou porque sabes que não deves fazer, porque isso não agrada a Deus e não faz parte da tua nova natureza? Sem dúvida que viver nesta dimensão não é fácil e exige que sejamos sinceros connosco mesmos e estejamos disponíveis para nos autoexaminarmos. 


A título de exemplo, algumas perguntas que poderíamos fazer a nós mesmos seriam: “Por que quero vestir-me assim? Por que quero servir na igreja? Qual é o meu verdadeiro desejo ao querer seguir esta profissão? Será que estou no tempo certo para namorar? Qual é a minha real motivação para as escolhas que faço?”


A vida cristã exige de nós momentos de reflexão e autoexame. Mais do que querer um método pronto do que podemos e não podemos fazer, precisamos estar disponíveis para que Deus trabalhe nos nossos corações e nos ajude a identificar a motivação dos nossos desejos. Quando os nossos desejos são transformados por Deus, aquilo que quisermos será o que Deus quer.


Então, quando fores atingido pela síndrome do jovem rico — “o que posso ou não posso fazer?” — deixa Jesus mudar a pergunta para: “O que estás disposto a fazer?” É a resposta a essa questão que determina de que lado estás: se do lado de quem quer agradar a Deus, ou do lado de quem quer agradar a si mesmo.


O Evangelho não é um tutorial de vida cristã, mas sim viver uma nova vida. Será que estás disposto a abraçar esta nova dimensão? 


Sara Rosa

Missionária AMAD

AD Ilha do Sal