“Então, disse Daniel ao cozinheiro-chefe, a quem o chefe dos eunucos havia encarregado de cuidar de Daniel, Hananias, Misael e Azarias: Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias; e que se nos deem legumes a comer e água a beber.” (Daniel 1:11-12)
A comida de cantina escolar, regra geral, não costuma ter a melhor das reputações. Nos meus tempos de ensino secular sempre vivi perto de casa, então era muito comum ir almoçar no conforto do meu lar, aconchegado pelos cozinhados da minha mãe. Enquanto criança, uma bola de futebol era suficiente para encher a barra da amizade. A amizade surgia, crescia, cultivava-se. Depois da bola tínhamos o mítico lanche, desde bolo caseiro até à Bolacha Maria com Planta! A mesa sempre foi (e espero que continue a ser) um ponto de encontro, reforço e cultivo para as amizades. O texto de Daniel, leva-nos à mesa da cantina da “universidade” babilónica. Àquela mesa, amizades vão sair reforçadas e reputações vão ser estabelecidas. No caso concreto, o menu de dieta vai ser a cola unificadora de um grupo de quatro companheiros.
O livro de Daniel pode ser divido em duas partes. A primeira metade do livro é narrativa, a segunda metade do livro está repleta de símbolos e linguagem misteriosa. No início de Daniel (1:1-7) somos apresentados ao contexto histórico. Judá (v1) era agora uma réstia do antigo reino unificado de Israel outrora governado por Saul, David e Salomão. Por esta altura, o reino do Norte já tinha perecido aos pés da Assíria (722 a.C.). O reino do Sul pertencia a uma mesma dinastia; todos os seus governantes eram descendentes de David. O maior tempo de reino de Judá deveu-se ao temor a Deus de alguns dos seus reis, contudo, isso nunca foi a norma. Em 609 a.C., Jeoaquim (v1) subiu ao trono. O seu reinado permaneceu ao lado da idolatria e imoralidade. Os avisos constantes dos profetas para a falta de arrependimento foram ignorados. Como as pessoas não deram ouvidos a Deus e não se arrependeram, o povo de Deus ficou à mercê dos seus inimigos, neste caso concreto o império da Babilónia. É para lá que vão ser deportados Daniel, Hananias, Misael e Azarias.
Estes jovens vão encontrar-se num país estrangeiro, diante de uma enorme adversidade. É neste ambiente extremamente hostil que a sua amizade com Deus se destaca e, consecutivamente, a de uns com os outros. Estes quatro jovens vão mostrar-nos como é possível permanecer fiel a Deus num ambiente contrário às nossas convicções e como podemos viver para Deus quando tudo se levanta contra nós.
A primeira adversidade não foi à mesa da cantina, mas sim no registo civil. O seu nome foi mudado com a clara intenção de fortalecer a perda de raízes em Deus: Daniel passa a chamar-se Beltessazar, Hananias passa a chamar-se Sadraque, Misael passa a chamar-se Mesaque e Azarias passa a chamar-se Abedenego. Neste aspeto, o texto não diz se os quatro companheiros foram contra, mas quando chegamos à mesa, o caso muda de figura. Como era prática comum (e ainda deveria ser), precisavam integrar-se e aprender a língua e costumes. Até aqui tudo bem. O problema é que muitos desses costumes envolviam um choque claro com as suas crenças. É de tabuleiro na mão que a maior batalha se vai travar – luta de convicções para que fique claro.
Por mais que a dieta de Daniel esteja na moda, é sempre importante salientar que o texto bíblico não está, de forma alguma, a fornecer um manual dietético! Repito – Daniel não é um manual de dieta! As preocupações dietéticas de Daniel não se baseiam na ideia de apenas certos alimentos serem os únicos que podemos consumir e os outros serem proibidos só porque sim.
Também não me parece que a recusa de Daniel esteja apenas relacionada com as restrições alimentares dos judeus, dado que o vinho é mencionado e nunca foi proibido – o que é sempre condenado por Deus é a embriaguez (o excesso de bebida…. e atenção porque há uma idade a partir da qual se pode consumir álcool, em Portugal é aos 18 anos, e sempre com moderação!). Num contexto idólatra e politeísta, a menção ao vinho não parece inocente (é recuperado no capítulo cinco no contexto de idolatria) e parece mostrar que participar naquelas refeições era um sinal claro de alguém que se tinha corrompido com a adoração a outros deuses. Parece claro que para Daniel, Hananias, Misael e Azarias isso era inaceitável! É aqui que este relato se torna particularmente delicioso e alimento para as nossas convicções.
A mesma mesa que serve de protesto, também alimenta. A vontade de Deus era repasto gourmet sem limites. O “não” de Daniel foi providencial porque existem “nãos” que são alimento para a alma. Quando todos partilhamos do mesmo menu, é natural que os laços de amizade saiam reforçados. Um amigo é aquele que diz “Tu também”. Quando temos um quarteto que grita a uma voz em resposta a Deus “Sim!”, isso é motivo de celebração. Agradeço a Deus porque ainda existem mesas como esta. Mesmo diante da adversidade e oposição, mais do que uma pessoa se posiciona para com Deus. Portanto, quando o menu fica desalinhado com Deus, a amizade também deveria sofrer. Nunca é demais salientar que, em primeiro lugar, somos amigos de Deus, e em segundo, amigos uns dos outros. Devemos valorizar aqueles que se posicionam pela verdade das verdades divinas, a quem com muito gosto podemos chamar: “Amigos”.
Que as nossas amizades mais profundas possam ter como ponto unificador aquilo que nos une a Deus e não contenham ingredientes que já expiraram o prazo de validade na mercearia de Deus.
Samuel Guimarães
Pastor
AD Suíça
