Desde pequena que sempre ouvi: “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Basicamente, fui sempre incentivada a procurar as "melhores" companhias. Curiosamente, as minhas amizades durante a fase mais crítica nem sempre foram as melhores, e essas relações “profundas” tiveram impacto nas minhas escolhas. Mas a questão é esta: foram sempre as minhas escolhas.
Qual não é a minha surpresa quando descubro que Jesus, sendo Senhor e Deus, era bastante eclético no que diz respeito aos Seus “amigos”. Segundo os Evangelhos, Jesus passava muito tempo com todo o tipo de pessoas que a sociedade religiosa rejeitava.
“Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos.” (Mateus 9:10, BPT)
Como assim? As pessoas com quem Jesus se sentava eram todas pecadoras? Mas então Ele não era santo? Não deveria ter-nos deixado um melhor exemplo de como escolher “boas companhias”?
“(...) Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: ‘Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora. (…)’” (Mateus 11:19a BPT)
Afinal até os Seus amigos mais íntimos, os discípulos, eram pescadores rudes, cobradores de impostos, e até zelotes (pessoas com ideias políticas radicais). Já para não mencionar o grupo de mulheres que servia e financiava o Seu ministério.
Em poucas palavras: se Jesus estivesse cá hoje, era o tipo de amigo que os nossos pais prefeririam que não tivéssemos, não fôssemos nós acabar presos, perseguidos ou em maus caminhos por O seguirmos… Ups!
Após este breve momento de insight, percebemos que Jesus é a pessoa mais social e versátil que conhecemos. Ainda assim, Ele mostrou-nos que a Sua "bateria social" não era infinita; precisava dos Seus momentos de comunhão e de solidão para recuperar da vida agitada que levava. O propósito Dele nunca foi que estivéssemos fechados nas nossas redomas (ou igrejas), até porque isso foi algo que Ele nunca fez. O objetivo sempre foi que pudéssemos estar com todo o tipo de pessoas e conhecê-las, não para sermos “levados” pelos seus valores, ideais ou loucuras, mas para sermos nós a mostrar que há algo mais para além do nosso próprio umbigo. A questão nunca são apenas as companhias que tenho, mas de que forma é que eu estou a ser uma boa companhia para elas. Achamos sempre que os outros é que estão errados ou fazem más escolhas, mas e eu/nós? Será que se os teus amigos seguissem o teu exemplo, eles estariam mais perto, ou mais longe de Deus?
A verdade é que ficamos facilmente parecidos com as pessoas com quem passamos mais tempo. Então, porque é que Jesus nunca Se tornou pecador, mentiroso ou traidor, se os Seus amigos mais próximos eram assim? O facto é que Ele não andava com pecadores para Se tornar um deles, mas para que eles, os Seus amigos e seguidores, pudessem ser santos como Ele era santo. Na prática, a vibe de Jesus (aquilo a que chamamos Santidade) era contagiosa. Ele sabia bem o que estava a fazer e tinha intenções muito claras quando se reunia com as pessoas, quando jantava com elas ou quando passava bons momentos em conjunto.
Jesus não escolhia pessoas por aquilo que elas eram ou pelo que poderiam oferecer-Lhe, muito menos para agradar aos outros. As escolhas de Jesus poderiam ter-Se resumido a ficar no Templo a agradar aos religiosos e políticos, mas o que é que aprenderíamos nós com isso?
Demasiada informação para um curto espaço de tempo, talvez uma caixa de comentários no teu pensamento, te possa ajudar a avaliar que tipo de amigo/a tu és, cá vai uma ajuda:
As pessoas com quem costumo estar aproximam-me de Jesus? Eu estou a aproximá-las de Jesus?
Sou livre para ser seguidor/a de Jesus enquanto estou com determinada pessoa? Ou preciso de esconder?
Sei bem quem eu sou? Ou preciso que os outros me digam quem sou?
Sou a(o) amiga(o) que traz sempre o melhor dos outros?
Talvez a melhor forma de pensar no provérbio que sempre ouvimos seja: “Diz-me se andas com Jesus, e eu dir-te-ei em quem te estás a tornar.”
Pamela Alves
Psicóloga e obreira
AD Porto
