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O 'casting'

Não era para uma nova série ou um filme. Também não se tratou de selecionar entre vários candidatos a um emprego. Não era um concurso público nem uma competição online onde ganhava quem tinha mais likes. Mas, houve uma escolha, uma seleção… diríamos hoje, um casting.

É bem provável que se fossemos nós a escolher, o resultado viesse a ser diferente. Afinal, os escolhidos eram tudo menos os apropriados (a nosso ver) para aquela função. Só para começar, um deles era descendente de uma prostituta, de uma estrangeira (sim, imigrante!), de um rei que provocou uma divisão da nação, e de um outro (rei) que fez coisas horrendas… E mais, viviam numa terra em que nem que nos pagassem aceitaríamos que de lá pudesse vir alguma coisa boa! Maria e José, um casal improvável nos patamares daquilo que seriam os pais do Salvador.

Dúvidas? Vamos ler só algumas passagens…

“São estes os antepassados de Jesus Cristo, descendente do rei David e de Abraão. (…) Boaz, cuja mãe foi Raabe (sim, a de Jericó!), Obede, que teve por mãe Rute, Jessé e o rei David. Os descendentes de David foram Salomão, cuja mãe tinha sido mulher de Urias, Roboão (que provocou a divisão do Reino), Abias, Asa, (…) Manassés (leiam 2 Reis 21 para terem a noção de quem foi este rei), Amom, Josias, Jeconias e seus irmãos, que nasceram quando os judeus foram deportados para a Babilónia. (…) e por fim José, marido de Maria, mãe de Jesus, chamado Cristo. São catorze gerações desde Abraão até ao rei David; catorze desde o tempo do rei David até ao exílio na Babilónia; e catorze do exílio até Cristo.” (Mateus 1:1,5-7,10-11, 16-17, parêntesis da autora)

“Filipe, por sua vez, foi ter com Natanael e contou-lhe: ‘Encontrámos aquele acerca de quem Moisés na Lei e os profetas escreveram! O seu nome é Jesus, filho de José, de Nazaré.’ ‘De Nazaré?’, perguntou Natanael admirado. ‘Poderá vir daí alguma coisa boa?’ (…)” (João 1:45-46a)

Natanael não queria acreditar. Ou Filipe estava muito enganado ou houvera um erro de casting, na sua perspetiva, como na da maioria dos judeus! A expectativa de grandiosidade, de poder político e militar, a perspetiva de um Messias à medida do pensamento dos que lideravam a religião judaica, nada tinha a ver com aquilo que Deus tinha preparado… Nem os pais de Jesus, nem o local de onde vinham, nem as condições em que nasceu, nem o Seu ministério eram o que esperariam que fosse… na perspetiva deles.

Se Deus é perfeito, os castings de Deus são perfeitos... E perfeitamente contracorrente dos da forma de pensar da sociedade. Aconteceu assim naquele tempo em relação aos pais do Salvador, como aconteceu quando o rei David foi escolhido, quando Jesus escolheu os Doze…  e hoje é igual.

Assim como a forma de pensar da época na sociedade judaica procurava um tipo de Messias que pudesse encaixar no seu padrão (bem que poderiam ter estudado as Escrituras sem filtros!), hoje somos tentados a nos conformarmos com os standards da sociedade e a escolhermos segundo os nossos olhos e preferências, e não as de Deus.

Ser filho de Deus e servir a Deus não tem a ver com elites, produção, imagem, canudos, pedigree ou compadrios... é Ele quem conhece os corações e (felizmente!) sabe quem é quem. Tem mais a ver com o carácter e o coração do que com outra coisa qualquer. Nós, por outro lado, julgamos pelo que nos é familiar, agradável, confortável e vantajoso... somos mais utilitaristas, tendenciosos e egocêntricos nas nossas escolhas... E isto não é mais um soundbite... é só conhecer um bocadinho (mais) a Bíblia para saber... 

“Reparem, irmãos, que mesmo no vosso meio, entre os que seguem a Cristo, são poucos os sábios segundo critérios humanos, os que pertencem a altos estratos sociais ou têm poder e riquezas. Pelo contrário, pois Deus escolheu de propósito as coisas que o mundo considera loucas para envergonhar aqueles que pensam ser sábios e escolheu as pessoas fracas para envergonhar as que têm poder. Deus escolheu as coisas que no mundo são insignificantes, as desprezíveis e as que não são nada, e usou-as para aniquilar as que são alguma coisa, para que ninguém se orgulhe seja do que for na presença de Deus.” (1 Coríntios 1:26-29)

“Nem todos os que me chamam ‘Senhor! Senhor!’ entrarão no reino dos céus. Porque o que importa é saber se obedecem ao meu Pai que está nos céus. No dia do juízo muitos me dirão: ‘Senhor! Senhor! Profetizámos em teu nome e servimo-nos do teu nome para expulsar demónios e para operar muitos outros milagres.’ Mas eu responderei: ‘Nunca vos conheci. Afastem-se da minha presença, pois praticam transgressões.’” (Mateus 7:21-23)

Poderíamos ainda acrescentar (entre outros) 1 Timóteo 3, onde Paulo escreve acerca das características dos presbíteros (pastores) e diáconos e, espantem-se, 90% das qualidades têm a ver com carácter e apenas uma acerca de capacidade “apto para ensinar” (v. 2, ARC).

O Reino é do Rei. Os princípios são Dele e não nossos. Mesmo que não seja hype, trend, e não agrade a todos... importa o que Ele quer e não o que nos dá mais jeito…

Ana R. Rosa

Big Sister e Diretora da BSteen